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Música

Fim de século e novidades

Huberto Effe – Vocalista da banda Picassos Falsos e hoje diretor da Rádio Roquette Pinto.

Tendo começado minha carreira musical profissional em 1985, com o grupo Picassos Falsos, no qual era o principal compositor e o cantor da banda, gravando 3 discos, Picassos Falsos em 1987, Supercarioca em 1988 e Novo Mundo em 2004, e depois, em 1995, lançado um disco solo, pela Virgin, produzido pelo produtor Chico Neves; me sinto bem à vontade para falar dos anos 80, que foram o ambiente e cenário do meu início de carreira e que trouxeram uma efervescência musical e cultural nova para o Brasil, principalmente pelo lançamento de um grande numero de bandas de rock de todas as regiões do país e que, até hoje, têm influencia sobre a musica brasileira, da regional à mais urbana.

Essa década, na verdade, fez explodir a produção artística de uma geração diferente das anteriores. Uma geração que cresceu durante a ditadura militar e foi buscar, na cultura pop-rock, uma alternativa de novos pensamentos sobre o mundo e o país, de uma nova manifestação artística em todas as áreas, teatro, cinema, literatura e principalmente na música; se libertando também dos chavões da esquerda que rondaram a música e outras manifestações culturais nos anos 60 e 70, que também se tornaram, de alguma forma, limitadores de qualquer criatividade, de qualquer surpresa apesar de serem a oposição ferrenha à ditadura e o outro lado da moeda desse período político tenebroso do Brasil. A geração artística dos anos 80 é a primeira pós ditadura.

É uma geração influenciada pela cultura pop dos desenhos animados, Hanna-Barbera, dos Jatsons (desenho animado cultuadíssimo para quem cresceu nessa época), em tudo que veio na musica a partir dos Beatles, Rolling Stones, The Doors, Jimi Hendrix, James Brown, Bob Dylan, da musica disco, do tropicalismo, das revistas em quadrinhos, da literatura mimeógrafo e todos os movimentos libertários e inovadores que apareceram no mundo a partir dos anos sessenta.

Uma geração que inovou na poesia, destacando-se o surgimento de alguns grupos poéticos como a Nuvem Cigana, os Camaleões e depois a catarse de Fausto Fawcet; no teatro com o Asdrubal Trouxe o Trombone, por exemplo; e na música com todas as bandas e artistas que surgiram desde o início da década. Considero o Circo Voador e os primeiros discos da Blitz, dos Titãs, de Arrigo Barnabé, do Itamar Assumpção, do Lobão, do Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso e o disco da Gang 90 o start, o marco zero dessa época, enriquecida mais ainda a partir das bandas de Brasília, que tiveram a sua marca mais forte no fenômeno Legião Urbana e no talento indiscutível de Renato Russo. Uma geração que também revolucionaria no conceito radiofônico da época, com a Fluminense FM, que pode ser considerada a porta-voz desse momento.

Além de ter deixado num curto espaço tempo uma série de novos artistas sobretudo na cena musical brasileira, a década de 80, deixou um legado técnico na nossa produção fonográfica. Novos produtores apareceram, começando a se aproximar dos grandes estúdios, através da produção dos artistas que eram lançados ou trazidos por eles próprios e que, com isso, renovavam a estética e a maneira de timbrar, de equalizar e de mixar discos no Brasil. Todos muito influenciados pelos avanços técnicos e estéticos que as produções na musica pop mundial tiveram a partir do fim dos anos 60 e que se desenvolveram muito nos 70. Cito como exemplo o primeiro disco do Lulu Santos e o Cabeça de Dinossauro dos Titãs e o primeiro da banda IRA!. Produções que podem ser ouvidas até hoje e que tem sonoridades ainda bem atuais. Cito 3 produtores fundamentais, Liminha, Pena Smith e Mairto Bahia.

O anos 80 foram o último suspiro do século 20, quando se fala em ebulição de surpresas e novidades em todas as áreas, deixando grande influência em tudo que aconteceu na década seguinte. Mesmo o cultuado e inovador Chico Science e Nação Zumbi tinha os dois pés nos 80, com uma influência muito forte dos primórdios do Rap e Hip Hop, do punk e da mistura com ritmos regionais insinuada por algumas bandas a partir de 86/87.

Talvez o caráter explosivo dessa década possa ser comparado hoje com o surgimento espontâneo dos novos grupos de samba, na Lapa, no Rio de Janeiro, nessa primeiro década do séc. 21, não só com o surgimento de jovens e novos artistas de maneira expontânea e criativa, como na abertura de uma série de espaços para um movimento novo do samba, estilo que parecia entregue ao passado, mas que está sendo a primeira grande marca do futuro.

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