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Impressos

História em quadrinhos: Super-heróis

Ricardo Soneto

Vista como uma mídia para ser levada a sério apenas quando fosse feita na Europa, algo aconteceu com as histórias em quadrinhos nos anos oitenta. Especificamente com as histórias em quadrinhos de super-heróis. O supra-sumo do não se levar a sério mesmo. Mas o que aconteceu, afinal?

Vejamos: A palavra mais importante foi “distopia”. No início de 1985 o excelente escritor e editor Mark Grunewald escreveu a mini-série “O Esquadrão Supremo”, na Marvel Comics, onde heróis que eram cópias da Liga da Justiça da editora rival (DC), que habitavam uma realidade paralela decidem resolver os problemas da Terra assumindo o controle dela de forma ditatorial. As conseqüências disso eram a mais profunda tragédia. No ano seguinte, o inglês Alan Moore criaria o que, para muitos, foi a melhor história de super-heróis de todos os tempos: “Watchmen” (publicada pela DC), que guardava uma visão perturbadora bastante parecida com a obra de Grunewald. A frase símbolo da história de Moore (“Quem vigia os vigias?”) poderia ter uma variação na obra anterior: “Quem tem poder sobre os poderosos?”.

É importante observar que a maturidade não era um assunto estranho no universos dos heróis coloridos. Em 1969-70, Denny O’Neal (texto) e Neal Adams (desenho) criaram uma série de histórias que tratavam de racismo, preconceito religioso, corrupção e uso de drogas por jovens que sacudiram o mercado. Os heróis da revista eram o Lanterna Verde (dono da revista) e seu amigo, o Arqueiro Verde Se avançamos os anos até os anos oitenta, chegamos ao nome de Frank Miller, que assume, primeiro o desenho (em 1979) e depois o texto também (1981), a revista do Demolidor (que estava para ser cancelada pela Marvel). Nela, o advogado cego Matt Murdock (com seus outros sentidos superativados) era apresentado como um homem em tormento, apaixonado por uma assassina, perdido em decepções e fracassos. Incensado pelo sucesso, Miller é convidado pela DC para apresentar, em 1986, sua versão de uma das suas personagens mais importantes: Batman.

Surge o “Cavaleiro das Trevas”, mostrando um herói setentão, cercado pela anarquia, perversão e ladrões no poder. Resumindo: tudo que ele tinha combatido. Num acesso de fúria revestida de vaidade, o homem velho retorna para o manto do morcego, como se para acrescentar a sua loucura pessoal de princípios e máscaras a esse cenário distópico. Um Super-Homem dócil ao governo é enviado para destruí-lo, mas o velho herói crava seu ponto de vista em um combate humilhante.

Com o “Cavaleiro das Trevas” a distopia está solta permanentemente. É interessante observar, partindo desse estágio, uma quase necessidade de reconstrução absoluta das personagens. Quem leva isso mais a sério é a DC com a maxi-série “Crise Nas Infinitas Terras” onde diversos heróis morrem (Flash, Supermoça) e universos paralelos são destruídos para o estabelecimento de um totalmente novo. Todas as origens precisam ser recontadas (Não chega a surpreender, aqui, que a melhor de todas é “Batman – Ano Um”, escrita por Frank Miller). Os anos oitenta então conhecem um novo Super-Homem, entre outros remodelados, e parecem tentar organizar a forte onda distópica que marcou sua metade.

Um selo de editora inteiramente voltada para histórias adultas é criado com imenso sucesso: VERTIGO, administrado pela DC, que recolhe as melhores experiências maduras realizadas em algumas das revistas, notávelmente “O Monstro do Pântano” e “John Constantine – Hellblazer (um desenvolvido e outro criado por Alan Moore), que vai resultar na maior obra prima dos quadrinhos para a próxima década: “Sandman”, do Inglês Neil Gaiman.

No caso da Marvel, Frank Miller retorna ao personagem que lhe deu fama, o Demolidor, para escrever seu melhor roteiro: a saga “Born Again” (conhecida como “A Queda de Murdock”, no Brasil), onde o herói tem sua vida inteiramente destruída para descobrir, no final, que ruínas existenciais fornecem novos espaços para novas construções numa vida nova. Nada mal para uma década marcada pela visão pessimista numa mídia que antes não era para ser levada a sério. E hoje, Miller, Moore e Gaiman são vendidos em álbuns de luxo… na Europa.

Cavaleiro das Trevas - Batman Demolidor

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